quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Aqui


- Bom dia.
- Bom dia!
- Você sabe me dizer onde eu estou?
- Bem aí.
- Mas aqui onde?
- Aí, ué.
- Sim, mas onde é aqui?
- Como assim, onde é aqui? Claro que aqui é aqui, e ali é ali. Lá é lá, e lá acolá é lá acolá. Deixe de besteiras e faça o que tem que fazer.
- Eu não sei o que eu tenho que fazer!
- Faça o que foi feito pra fazer, ora bolas!
- Mas se eu não sei nem onde é aqui, ou ali, ou acolá, ou onde quer que seja, como diabos vou saber o que tenho que fazer aqui?
- E se você não tiver nada pra fazer aqui? E se tiver que fazer ali?
- Mas ali onde???
- Ali, ó!
- Ali?
- Não, aí não, ali!
- Onde? Aqui?
- Não meu amigo, não aqui, ali!
- Você está me confundindo!
- Vamos fazer assim, dê um passo pro lado.
- Assim?
- Isso.
- Tá.
- Agora dê dois passos para trás.
- Certo.
Agora um passo para o outro lado.
- Tudo bem.
- Agora, dois passos pra frente.
- Um, dois... pronto.
- E então?
- Mas eu estou no mesmo lugar que estava antes!!
- Pois é, mas agora você já esteve ali, acolá, bem ali, e voltou para cá.
- ...
- Você está bem?
- Estou. Ótimo. Supimpa!
- Que bom, então seja bem vindo!
- Mas bem vindo a onde, pelo amor de Deus?!
- Bem vindo a Aqui.
- Ugh.
- Amigo, você está bem? Tem uma veia enorme se formando na sua testa, parece que vai explodir.
- Estou ótimo, esplêndido!
- Não parece.
- Sério? Por que você diz isso?
- Não sei, talvez seja essa quantidade de suor pingando no chão, ou o fato de que você está mordendo a língua tão fortemente que parece que daqui a pouco ela vai se partir. Mas o que chama a atenção mesmo é o fato de que você está tremendo todo.
- Uhum.
- Uhum?
- Uhum.
- Como assim “uhum”.
- Apenas “uhum”.
- Amigo, venha aqui, deixe eu lhe ajudar com esse stress todo.
- Ahá! Ahá! Rá! Te peguei! Como eu posso ir aí, se aqui é aqui? E se aí fosse aqui, aqui então não seria aqui, seria ali, ou acolá. E acolá nunca seria ali, acolá seria acolá. E ali seria ali, e ali seria aqui, e aqui então seria bem ali, e ali seria lá e ... AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH...
- Que gritaria toda é essa?
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH...
- Sei lá, ele está confuso, acho que perdido, não sabe onde está.
- AAAAAAAAAAAAAAEEEEEEEEHHHHHHHHHHH...
- Pobre coitado. Desorientação é algo grave.
- UUUUUUUUUUAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH...
- Pois é, não sabe nem onde é aqui.
- AAAAAAAAAAAAAQQUUUUUUUUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII...
- Ei, chorão, tudo bem por aí?
- humf, humf, humf... quem... humf é... humf você?
- Eu sou João.
- João?
- Sim, João.
- Mas como assim João?
- João, e pronto. Como em João e o Pé de Feijão, mas sem o Pé de Feijão. Só João.
- João. Tá. Tá bom. Mas e ele?
- Ele não importa mais, já não está nem aqui.
- Como assim? Ele tava aqui agorinha! Eu juro! Pra onde ele foi?
- Foi embora.
- Mas... Mas... Mas embora pra onde? E principalmente, embora de onde?
- Ele foi pra lá, e foi embora daqui.
- AH! AH! AAAAAHHH! AAAAHHHHHH!
- Começou a guinchar de novo... Pode parar com isso, é irritante.
- Desculpa.
- Tá desculpado.
- Obrigado.
- Não há de quê.
- É que o outro lá me deixou doidinho, falando de aqui e ali, aqui e ali.
- É, ele é meio lelé mesmo. Nem sabe onde ele está.
- E você sabe?
- Sim.
- Sabe mesmo.
- Sei sim.
- De verdade?
- Verdade pura.
- E onde estamos então?
- Aqui.
-...
- Amigo? Amigo? Tudo bem aí no chão?
- Hã?
- Sou eu, João. Você de repente caiu.
- Caí?
- Sim, bem aqui ó.
- ...
- Ei, ei! Não desmaia de novo! Abre os olhos!
- Me larga, vou morrer bem aqui!
- Nada disso, é proibido morrer aqui.
- Ai ai, que droga de lugar é esse que não tem nome e as pessoas nem podem morrer?
- E quem disse que aqui não tem nome?
- Você e ele!
- Ele nem tá mais aqui.
- Eu sei! Eu sei!!!!!!!!!!!!!
- Epa, não grite aqui, também não pode!
- Grito sim!
- Não é permitido gritar aqui.
- Eu grito sim, quer ver?
- Na verdade não...
- MÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!! MÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!! 
- Isso é um grito? Pareceu mais um balido.
- É que estou com a garganta seca.
- Se quiser, ali atrás tem água.
- Quero sim, mas ali atrás onde?
- Ali atrás, depois dali.
- Ai meu coração!
- Tudo bem aí amigo?
- Tudo... Tudo... Acho que tive mais um infarto.
- É, desorientação é difícil mesmo.
- Que desorientação que nada, eu só quero saber onde estou!
- Então, se não sabe onde está, obviamente é uma pessoa desorientada.
- Olha João, eu não sou um desorientado tá legal? Só não sei onde estou.
- Já falei, você está a...
- Para! Não vem com essa! Não vem falar que estou aqui! É claro que sei que estou aqui! Mas onde é aqui?
- Aqui é aqui.
- ...
- Seus olhos estão vermelhos, isso nunca é bom.
- Espera! Já sei! Vocês estão querendo me sacanear não é? Ficam dizendo que aqui é aqui, só pra me deixar doido, depois sai dali de trás alguém da produção do programa de câmera escondida com um papel pra eu assinar, não é?
- Acho que não hein.
- Acho que sim hein.
- Não! Claro que não!
- Amigo, calma, não se exalte. Vem, levanta, me dá a mão.
- Nunca! Vou deitar aqui e morrer.
- Não pode morrer aqui. Só pode morrer lá.
- Sniff. Sniff. Por favor, para com isso, por favor para com isso, por favor para com isso...
- Com isso o que? E segura aqui no meu braço, levanta.
- Certo. Mas que fique registrado que estou levantando por coerção, e que minha vontade mesmo era de morrer.
- Tudo bem. Anotou isso Vicente?
- Anotei sim João. No relatório diz “O Recém chegado apresenta imensa desorientação, e mesmo sabendo que não pode morrer aqui, insiste em ficar deitado no chão até morrer. Foi posto de pé com ajuda de João, mas afirma que sua vontade é de morrer”. Algo mais?
- Sim, não esqueça de mencionar o mau gosto dele para roupas.
- PERAÍ! Quem é você, de onde você veio, e o que está fazendo? E como assim mau gosto para roupas?
- Ele é o Vicente.
- Eu sou Vicente. Prazer.
- Ele veio de longe.
- Eu vim de Longe.
- Ele é o escrivão.
- Eu sou o escrivão.
- E suas roupas são bem feias.
- Sim, suas roupas são feias.
- Não tem nada de errado com minhas roupas! E onde você estava até agora a pouco?
- Claro que tem muito de errado com suas roupas. Veja bem, ninguém usa mais isso. E esses sapatos beges, que coisinhas feias!
- Que coisinhas feias, sim senhor. E eu vim de longe, mas estava aqui o tempo todo.
- Não tava não. E eles são elegantes, ok?
- Ele estava sim. E não, mentiram pra você dizendo que eram elegantes.
- Sim, eu estava aqui antes de você chegar aqui. E são bem feinhos, acredite sim.
- Eu também acho eles feios.
- Ai meu Deus, e quem é você agora?
- Oi Félix.
- Bom dia Félix.
- Oi João, bom dia Vicente. Oi novato, sou Félix.
- Não sou novato! E você faz o que? Deixa adivinhar, é o cara da produção que vai dizer pra mim que isso é uma pegadinha, certo?
- Não, estou só de passagem. Passo todo dia por aqui. Tchau João, tchau Vicente. Até mais novato.
- Tchau Félix.
- Tchau Félix.
-  Não sou novato!
- Gente boa o Félix.
- Cá entre nós João, acho ele meio exibido. Passa por aqui todo dia, só pra se exibir.
- Talvez.
- Mas enfim, vou voltar pra ali, continuar a registrar. Até logo pessoal.
- Até.
- ...
- Que foi?
- Pra onde ele foi?
- Pra lá.
- Tá. E fazer o que lá.
- Registrar.
- E registrar o que?
- O que for que aconteça.
- ...
- Para com isso. Vamos logo?
- Pra onde?
- Pra lá.
- Lá aonde?
- Lá. Depois dali.
- João.
- Oi.
- Ai, João.
- Que foi?
- Por favor...
- Por favor, o que?
- Por favor, me diz onde eu estou!
- Ora bolas, já disse várias vezes!
- Não! Não! Eu me recuso a acreditar que esse lugar seja simplesmente aqui, que esse lugar não tenha nome!
- E quem disse que não tem nome?
- Vocês!
- Nós? Nós não, e com mais certeza, não eu!
- Caramba! Você sim! E também o Vicente. E também o Félix! E aquele outro cara!
- Eu não!
- E muito menos eu!
- Sem sobra de dúvida não eu!
- Oi Raul!
- Oi Raul!
- Oi Raul!
- Raul?
- Oi João. Vicente. Félix... E oi novato.
- Já de volta Félix?
- Já sim João, só de passagem de novo. Até mais pessoal!
- Até.
- Até.
- Até.
- ...
- Também vou indo, está na ora de ir acolá.
- Tchau Raul.
- Vá com Deus.
- ...
- Até pessoal. Falando nisso, o novato tá estranho. Tá até babando.
- ...
- Eca. Vou voltar pra lá João.
- Até Vicente. Agora vejamos, vamos limpar essa baba e levantar esse novato.
- Não sou novato!
- Claro que é.
- Não, não sou.
- Sim, é. Agora segura minha não e levanta.
- Tá. Mas não sou novato.
- É sim.
- Não! Não sou!
- Você nasceu aqui?
- Não.
- Já veio aqui antes?
- Não, mas...
- Então é novato.
- ...
- Não faz essa cara.
- Que cara?
- Essa daí.
- Essa é minha cara. Não tenho outra. Que tem de errado com ela?
- Nada, só essa cara que você tá fazendo. Parece que vai chorar, está tentando assobiar e está resolvendo uma equação biquadrada ao mesmo tempo. Tudo isso chupando limão.
- Olha, vamos deixar minha cara de mão tá? Você tava dizendo que esse lugar tem um nome.
- Sim, tem.
- E por que não me disseram antes?
- Por que você não perguntou.
- ...
- Agora além de chorar e assobiar enquanto está resolvendo uma equação biquadrada e chupa limão, parece que levou uma topada no dedo mindinho. E tem alguém lhe fazendo cócegas.
- É mesmo!
- Esqueceu algo Félix?
- Não, só indo ali.
- Tchau Félix.
- Tchau João.
- ...
- Gente boa, o Félix.
- João...
- Oi.
- João...
- Diga.
- João!
- Oi.
- ...
- Agora você está chorando.
- Sniff... Sniff..
- Pelo menos não parece mais que está chupando limão.
- João...
- Pois não meu amigo!
- Ai João!
- Diga homem!
- ...
- !
- ...
- !
- João!
- Oi.
- Por favor, pode me dizer qual é o nome deste lugar?
- Claro que posso!
- E qual é o nome desse lugar?
- Aqui é Lugar Nenhum.
- ...
- Cuidado novato!
- Que barulho foi esse João?
- Acho que o novato teve um infarto e morreu.
- Mas não pode morrer aqui.
- Eu sei Vicente, acha que eu não disse isso?
- Tá, desculpa. É que registrar é muito chato.
- Eu sei. Mas cada um tem que fazer sua parte.
- Vou voltar pra lá.
- Tudo bem. Acorda amigo. Ei novato, acorda.
- ... Eu não morri? Eu juro que senti meu coração explodir.
- Você bem que tentou, mas é proibido morrer aqui.
- ...
- Para de fazer essa cara!
- Tá. Deixa só eu me sentar.
- Fique a vontade.
- Quer dizer que... que eu estou em Lugar Nenhum? É isso?
- Sim.
- Só isso, simples assim, estou em Lugar Nenhum?
- É.
- É?
- É.
- Tá.
- Tá certo.
- E agora?
- E agora?
- É!
- É?
- É ué!
- É ué o que?
- É ué, e agora?
- É ué e agora o que?
- É ué e agora o que a gente faz.
- Sei lá. Quer ir pra Algum Lugar?
- ...
- Vicente, ajuda aqui que ele morreu de novo.
- Vicente foi ali, deixa que eu ajudo.
- Obrigado Félix.
- De nada.
- Tchau Félix.
- Tchau João.
- ...
- Acordou novato?
- ...
- É impressão minha ou tá com raiva?
- Não, só tive um derrame.
- Acontece.
- O que?
- Derrames, acontecem.
- Pois é.
- É.
- Ok, pois vamos pra Algum Lugar.
- Tá, vamos nessa.
- E onde é Algum Lugar?
- É logo ali.
- ...
- Ai ai, que novato frouxo. Vicente!!!!
- Tô chegando.
- Ajuda aqui a por ele no ombro.
- Ruff, que pesado.
- Valeu Vicente.
- De nada João.
- Vou levar ele pra Algum lugar.
- Ok.
- Olha lá Vicente.
- Ih, chegou outro novato, vou avisar o Raul pra ir receber ele.
- Tá certo. Daqui a pouco vou lá.
- Tudo bem.
- Ei Raul, olha lá, mais um novato perdido.
- Xá comigo que estou indo.
- Vá que eu vou registrar.
- Ei, ei, você aí sozinho.
- Bom dia.
- Bom dia!
- Você sabe me dizer onde eu estou?
- Bem aí.
- Mas aqui onde?
- Aí, ué.
...


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Prólogo de algo sem título


Levantou-se da cama aos lamentos, não era hora de acordar, ainda não, ainda não estava claro, levantar agora não, mas o maldito controle remoto não funcionava, talvez fosse a pilha que tivesse acabado, talvez estivesse com o controle remoto errado na mão, talvez o controle estivesse quebrado, ou talvez fosse tudo isso, um controle remoto de outro aparelho, sem pilhas e quebrado, mas o fato é que por causa disso ele teve que se levantar muito mais cedo do que o era costumeiro. Precisou levantar pra desligar o ar-condicionado, estava frio demais, mas isso era comum, nessa hora ele sempre desligava o ar-condicionado com o controle remoto, só que usava o controle remoto certo, ou com pilhas, ou funcionando, algo assim, mas o importante é que ele usava o controle, o controle funcionava, o ar-condicionado desligava, e ele voltava a dormir.
Era um pequeno ritual que ele chamava de pre-acordar. Funcionava assim: ele acordava por causa do frio, desligava o ar-condicionado, voltava a dormir, mas nunca caia num sono profundo demais, o calor crescente, os barulhos da rua também aumentando enquanto o bairro ia acordando, e a consciência de que precisava acordar logo-logo o faziam descansar sem realmente dormir, mas também sem estar desperto. Todo esse trabalho por que detestava ser acordado abruptamente, não havia nada pior do que ouvir o pii pii pii pii, pii pii pii pii de um despertador raivoso logo na hora da alvorada. Bem, haviam sim coisas muito piores, mas o aquele pii pii pii pii entrando sem pedir licença no meio de um bom sonho e o trazendo bruscamente para a vida real era pra ele como um peixe sendo fisgado num anzol, um anzol gelado. Um anzol gelado e enferrujado. Imaginem esse anzol, gelado e enferrujado, sendo empurrado goela abaixo, depois furando o seu céu-da-boca, e depois lhe puxando com toda a força pra fora de onde quer que você esteja. Pois é, era assim que o pii pii pii pii do despertador parecia pra ele. Um pouco exagerado, mas cada um exagera onde quer, não é problema nosso.
O nosso problema é ele ter acordado antes, e ter se levantado pra desligar ao ar-condicionado. Ele ter se levantado, especificamente, foi o causador de todo o problema. Depois de levantar, ele não conseguiu mais dormir. Nem descansar. Revirou-se de um lado pra o outro, deitou de bruços, mudou a cabeça pra o outro lado, voltou pra posição inicial, deitou-se transversalmente na cama, armou a rede, deitou, testou cada um dos lados, desarmou a rede, fez seis polichinelos, correu duas vezes em volta da cama, fez onze flexões, e quando se sentiu cansado, voltou a deitar. Mas agora estava suado, e não conseguia dormir suado, afinal de contas, era por isso que desligava o ar-condicionado. Decidiu ir tomar banho.
Procurou e achou dentro do guarda-roupa a toalha verde, a com menos pelos, e que irritava menos quando enxugava o rosto, colocou-a sobre o ombro esquerdo, abriu a terceira gaveta, contando da esquerda para a direita, e pegou uma cueca branca, que um dia já havia sido amarela, mas de tanto ser usada e lavada, lavada e usada, desbotou até ficar com uma tonalidade quase branca, mas não tão branca. Contornou a cama mais uma vez, abriu a porta do banheiro, a luz do sol já estava iluminando o ambiente feito de mármore e vidro, e, naquela hora, banhado pelo sol, ele percebeu que não adiantava mais tentar dormir. Olhou-se no espelho, usou o indicador da mão direita pra levantar o lábio superior, examinou, orgulhoso, as gengivas bem vermelhas e os dentes mais brancos que o mármore da pia, sorriu pra si mesmo, abriu o box do chuveiro, feito de vidro branco fosco, colocou o pé direito em cima do ralo, abriu a ducha, e a água fria o fez dar um passo em falso.
Caiu, desastradamente e pesadamente, sobre a fina folha de vidro branco fosco do box, que rompeu-se sem demonstrar resistência, abriu-se em dezenas de cacos, todos pontiagudos, estranhamente triangulares. Cada caco procurou um local diferente do corpo dele, e ali decidiram criar abrigo pra suas pontas, e sem dó nenhum perfuraram o a pele amendoada dele. Um pedaço maior desceu velozmente, perpendicularmente ao chão, e com a mesma facilidade com que uma agulha fura um balão cheio de ar, ou que um tigre assassina sua presa, rasgou-lhe a garganta violentamente. O chão branco ficou coberto de um vermelho vivo, seguido por um outro vermelho mais escuro, e mais espesso. Não se debateu, já havia morrido antes de tocar o chão.
Enquanto o bólido triangular, branco-fosco, se aproximava de sua garganta, só pensava “devia ter ficado com frio”.

sábado, 10 de março de 2012

Prólogo

Pessoal, esse, se possível, vai ser o primeiro capítulo de um, talvez, livro. Deem suas opiniões.


O mar jogava o navio de um lado pro outro, as vezes alto, as vezes mais alto ainda, mas nada que um marinheiro experiente não estivesse acostumado. Estavam em meio a uma grande tempestade tropical, as ondas ficavam cada vez maiores, e maiores, ao ponto de por algumas vezes chegava a cobrir a popa. Marinheiros com barris de madeira cheios de areia espalhavam pelo chão pra facilitar na hora de passarem os escovões de tirar agua, tampões de madeira pra fechar buracos causados pelo vento forte que arrancava tabuas de seus rebites, e cunhas enormes chamadas de bujões, usadas pra preencher esses eventuais espaços entre as tábuas do casco recém-escovado.

O navio resistia bravamente a cada investida do oceano, persistia contra as imensas ondas verdes e salgadas. Marinheiros cantavam e bebiam rum, abaixavam as velas para não serem rasgadas pelo vento, outros lutavam com o timão pra manter o navio estável, e os que não tinham nada a fazer, apenas bebiam e cantavam. Nos porões, mulheres se escondiam e se agarravam onde podiam. É verdade que não podiam haver mulheres nos navios, mas elas sempre entravam, e o capitão fazia vista grossa a tais quebras-de-conduta. Ele também já havia feito clandestina uma ou duas mulheres em seu tempo de Guarda-Marinha.

Tais mulheres viviam de viajar enfurnadas nos porões dos barcos, muitas vezes sem nem subir ao convés durante uma viagem toda, e eram conhecidas como Damas de bordo. E essas viagens poderiam durar meses. Ficavam em quartos que deveriam ser despensas, espremidas entre odres de rum e barris de gordura, elas viviam e faziam seu trabalho. Quatro, cinco, até seis em uma única noite, cada um por uma peça de cobre, alguns clientes particularmente satisfeito pagavam duas, e elas levavam uma vida decente, se comparada ao que as esperava em terra. Eram em sua maioria fugitivas, filhas enjeitadas de pais cruéis, órfãs sem protetor, adúlteras, viúvas de mercadores falidos, ladras, algumas prostitutas cansadas da vida dentro das casas-de-prazeres, ou mesmo apenas aventureiras cansada da vida que tinham, e tentavam essas viagens, longas e cansativas, onde a esperança era grande, de desembarcar com os bolsos cheios de cobres, desembarcar em uma nova terra onde seu nome não tenha caído em desgraça, desembarcar em uma terra onde tivesse um futuro. Qualquer futuro.

Algumas dessas mulheres tinham sorte, e caiam nas graças de algum oficial, ou marinheiro mais forte, e passavam a dividir os aposentos com ele, apesar de mesmo assim não poderem subir ao convés, era uma vida bem melhor, e as janelas de bordo proviam algum sol, e a companhia constante também garantia alguma proteção e melhor comida.

Outras não tinham tanta sorte, e em uma proporção tão grande que muitas vezes chegava em uma pra cada oitenta marujos, em alguns meses elas já estavam em estado de saúde tão debilitado que uma febre era o bastante pra dar fim a sua já frágil e desgraçada vida.

Uma dessas desafortunadas, morta de exaustão, sede e febre, foi mãe de um menino, mas nem mesmo se podia saber quem era a mãe dessa criança, pois na mesma semana morreram quatro damas de bordo, e o bebê, sem chorar nenhuma vez, e sem estar sem uma gota de sangue o sujando, prova de que não havia nascido tão recentemente, foi encontrado embolado numa estopa de recarga de canhão. Sua mãe devia pretender que ele fosse explodido ou atirado ao mar. Mas não importou, por que ela, quem quer que fosse, morreu primeiro, e o menino calado e já com cara de poucos amigos, sobreviveu enrolado em meio a pólvora. Os marinheiros o passaram de mão em mão, procuravam seu pai, brincavam e apostavam quem seria o azarado de ter tido um filho em pleno mar, mas chegou-se a conclusão que esse filho era de ninguém, pois não se sabia qual das três damas de bordo podia ser sua mãe. O menino então foi adotado pela tripulação, e foi apelidado de Pólvora, por que naquela primeira noite, achavam que ele estava preto de sujo, mas nem dois banhos de agua do mar e um de rum mudaram seu tom de pele estranhamente preto-cinza. Pólvora, fora assim que foi batizado por quinhentos e setenta e nove marinheiros, cada um podendo ser seu pai. E era isso que era, filho de meia centena de dúzias de animais e de três putas.

E o capitão nunca o deixaria se esquecer disso. Foi cuidado e amamentado por uma das damas de bordo que havia perdido um filho uma semana depois de o encontrarem em meio aos canhões, e não podia pegar a luz do sol nunca, era proibido de sair dos porões. Só era cuidado pela mulher que perdeu um filho, e como era uma viagem especialmente longa, foi amamentado por cinco meses, até a bondosa dama agonizar com os berros sufocados por um brutamonte que não se conteve, e enquanto tinha seu prazer visceral, esmagou a traqueia da pobre dama que só quis lhe oferecer companhia, e a matou, tudo isso pra não pagar um simples cobre.

O brutamonte, chamado Pricks, olhou pra pequena cama improvisada no depósito, e pro berço feito de barris que estava ao lado, e gargalhou. A sua gargalhada cruel acordou o pequeno Pólvora, que começou a chorar abundantemente. Pricks podia ser um brutamonte, mas também tinha a inteligência maligna de uma víbora, e sabia que se o menino não se calasse, logo alguém iria lá e o pegaria no flagra, com um corpo estrangulado que tinha as marcas de suas imensas mãos. Tentou calar o pequeno, xingou e gritou, deu palmadas mas suas mãos gigantes só machucavam o bebê. Tentou fazer carinho, mas seus dedos calejados arranhavam a pele delicada da criança. Pensou e pensou, e decidiu que o menino tinha fome. Então procurou comida, tentou dar rum, tentou dar queijo, mas a criança não comia nada disso. Leite! O menino precisa de leite, decidiu ele, e sorriu quando olhou pros lados e viu que tinha leite bem ali a sua frente. Levantou o menino pela parte de traz do pescoço usando apenas o dedo indicador e o polegar, e espremei os peitos da morta, fazendo o menino mamar leite de uma defunta. O menino sorveu o liquido morto com desespero, até não ter mais nenhuma gota, e então Pricks o puxou pra cima com força e disse:

- É isso que filho de rameiro merece, leite de morto. Num vô gastar leite de cabra boa com um merdinha que nem tu, e se tu chorar de novo, eu te boto debaixo dela e tu morre sufocado, aí todo mundo vai pensar que ela que te matou.

O menino, como se entendesse as palavras cuspidas em sua cara, tinha o olhar vidrado, fixo nos olhos negros do grandalhão. O próprios olhos do menino pareciam mais inteligentes do que os de Pricks, e por algum motivo, ele teve medo, tanto medo que jogou o menino de apenas seis meses para longe, lançando-o contra o corpo da mulher morta, que amorteceu sua queda, mas não impediu que a criança batesse a cabeça numa garrafa de rum, que, com um estalo longo, se partiu e derramou todo o conteúdo nos olhos do bebê. Sangue escorreu de um corte vertical recém causado na nuca da criança, mas mesmo assim ele não chorou. Ficou ali de olhos abertos ardendo de rum, com a cabeça sangrando, e olhando para o gigante cruel que acabara de matar a única pessoa que lhe tratou com dignidade.

E se não fosse um bebê, Pricks teria dito que aquele menino o odiava, e que seus olhos juravam vingança.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Simon, O Esquerdo.

Meu lado esquerdo não gosta de mim. Tudo bem que eu não sou lá grande fã do meu lado esquerdo, mas meu lado esquerdo realmente não gosta de mim. E quando eu digo não gostar, eu quero dizer odiar.

Eu chamo meu lado esquerdo de Simon. Não que eu seja esquizofrênico, longe disso, é que quando eu era mais novo, tinha esse cara da minha escola, chamado Simon, que não gostava de mim, de jeito nenhum. Sem contar que ele parecia que só tinha dois lados esquerdos no corpo, de tão atrapalhado que era. E era feio, e babava. E o meu lado esquerdo, que de agora em diante vou chamar de Simon, me faz essas coisas, ele baba enquanto eu durmo, ele assanha meu cabelo, e ele deixa o olho aberto quando vem aquela luz forte, só pra me prejudicar. Ele tropeça de propósito, quebra as coisas, e faz tudo parecer que sou desastrado. O Simon é assim. Dissimulado e maquiavélico. E me odeia.

Dia desses, caminhávamos na rua, eu e o Simon, quando esbarrei sem querer num poste, pedi ao Simon pra usar seu braço e me ajudar a não cair, mas como eu já disse antes, o Simon me odeia, e ele fez questão de não mexer um músculo do braço. E lá fui eu de cara na lama. O Simon também se melou de lama e esgoto, mas não que ele se importe com isso, Simon é sujo mesmo. Teve uma vez que eu estava sentado numa calçada relativamente alta, e quando eu prestei atenção, Simon tinha metido o pé na lama.

Outro dia, enquanto eu banhava meu banho gelado, passando meu xampu, com os olhos cheios de espuma, quis pegar o condicionador pra terminar de lavar o cabelo, mas ao invés disso, Simon trouxe um Colgate Whitening, e me fez lavar o cabelo com aquilo. Parecido com isso foi o dia que ele me fez usar um spray analgésico como se fosse desodorante.
Tem gente que diz que eu não tenho coordenação motora, mas isso é por que eles não conhecem o Simon. Eu gasto quase toda minha concentração pra manter o Simon quieto. Imaginem o que ele é capaz de fazer, já que ele é responsável pelo lado lógico do meu cérebro. Quando eu falo enrolado, não é outra coisa, senão o Simon querendo me atrapalhar de novo. Toda vez que eu tento escrever com o lado do Simon, as coisas saem horríveis. Simon vive tentando me atrapalhar.

Mas nem tudo é ruim com o Simon, quando ele tá de bom humor (é só dar uns chocolates pra ele) as coisas funcionam bem direitinho.
Tô tentaASAAAAAAAAAAAA
Tô tentnaaaaNdOescr

Err... Tava tentando escrever aqui, mas parece que o Simon já tá de saco cheio disso, e metade do teclado é dele, então... até a próxima! (Ou não)

Ícaro e Simon
 
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