terça-feira, 6 de outubro de 2015

Novos Companheiros

Pai, faz mais de um ano desde a última vez que eu lhe escrevi algo, estive ocupado. Tem muita coisa que não lhe contei, muito aconteceu. Primeiro me desculpe por ter arrancado as páginas do diário que começamos a escrever juntos, mas era a única coisa que eu tinha pra manter o fogo enquanto passava pelos longos dias de solidão e febre. Cada página arrancada levava um pedaço de minha alma, levava a lembrança dos nossos dias, de quando meus irmãos não eram gananciosos malditos, das cavalgadas sem destino em nossos campos. Mas a página que mais doeu foi a em que meu pequeno Jonas tinha me desenhado, em seus traços de criança, com armadura prateada, elmo e espada, montado do Arauto. O Arauto ainda está comigo, e com ele consegui fugir de ter a cabeça cortada. Como teve minha Jassel. ...

Perdão meu pai, mas não consigo falar sobre Jassel sem sentir o fogo e a dor. Quando esse nó sair da minha garganta contarei tudo, voltarei a lhe escrever tudo. Eu prometo.

Ainda trago comigo suas posses, não deixaria-as nas mãos dos sete facínoras que hoje comandam suas antigas terras. Invadi a Mansão da Mão de Diamante, montado no Arauto, nós parecíamos a encarnação de um raio, tomei para mim o seu baú, e hoje lhe digo que a Justiça Luminosa é guiada movida pela minha mão, mas guiada pelos seus ideais. As escamas de Bahamut me protegem em cada jornada, e o escudo, Inominável como no juramento que o senhor fez, afasta todo o mal de mim. Carrego ainda comigo a Mão Brilhante da Justiça, e com essas armas que já foram suas, me transformei num flagelo para os vilões. Até que um chamado veio a mim, e eu o aceitei sem pestanejar.

Por enquanto falarei dos meus novos companheiros, do chamado que recebi. Tudo ainda é um pouco confuso pra mim, nem sei como eles podem me aceitar no meio deles, são tão poderoso, tão inteligentes e sábios. Mas me aceitaram, e e acolheram como um dos seus, e eu vou fazer de tudo pra ser tão bravo quanto eles são. Ao lado deles combati mortos que andavam, orcs imundos, até chegarmos no covil da mais assustadora criatura que eu já vi. Era um Urso-Coruja. Não, me engano, eram dois Ursos-Coruja. Poderosos, assustadores e violentos. Logos nos vimos duelando com a morte enquanto os bicos do tamanho de um punho perfuravam, e as garras como adagas rasgavam couro metal e carne. E foi então, pai, que eu senti.

Estava em meu último fôlego, as garras da criatura levaram parte de minha cota-de-malha e chegaram até minhas costelas, doeu, doeu demais. Ferro quente deslisando em cortiça, rasgou-me quase até as entranhas. Meus amigos bravamente chamaram a atenção da criatura, mas eu sentia que era o meu fim, minhas pernas tremiam e eu não conseguia nem mesmo ficar de pé sem tremer. Meu sangue pingava e escorria pela Justiça Luminosa, eu estava entregue ao meu destino, iria me encontrar com Jassel e Jonas. Mas então eu vi todos os rostos, o seu, o deles, tristes e dizendo que ainda não era minha hora. E depois eu vi, rápido como um raio nos céus, brilhou em minha frente a sagrada forma de Bahamut. E eu gritei. Pedi. Disse a ele que ainda não era minha hora. E era verdade. Sua luz veio de baixo para cima, me envolvendo num turbilhão prateado de poder, e me deu a última energia. E eu golpeei. E golpeei de novo. E mais uma vez. E num último golpe guiado pela Justiça, arranquei a asa da maior das criaturas, e ela caiu. Sei que não faria isso sozinho, sem meus amigos não conseguiria, mas naquele momento me senti especial. Senti que uma missão maior me esperava. Jassel e Jonas vão ter que esperar, mas o senhor vai ouvir mais de mim.

Coletei essa pena imensa como troféu, e estou colando na página seguinte, pra que um dia alguém possa falar de Corbin St. Justice como falavam do senhor, e espero poder inspirar alguém.

Fico por aqui, preciso agradecer a Bahamut e fazer um juramento de devoção. Consagrar meu corpo alma e armas a Ele.

Até meu pai, e que seja breve.

Corbin St. Justice, Servo de Bahamut, o mais comum dos cavaleiros.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Linóleo

Na sala quente, de uma construção antiga, estavam lá, dezesseis pessoas estranhas entre sim, pelo menos em sua maioria. Alguns aflitos, muitos excitados, outros nervosos. Ninguém indiferente.

A sala era ampla, retangular, com oito janelas duplas de cada lado, no momento fechadas por causa dos grandes e barulhentos condicionadores de ar, que no calor daquela época, pouco podiam fazer. De cada um dos lados haviam barras de ferro fixadas a parede, pintadas com tinta óleo preta, há muito tempo, tanto tempo que o preto se tornava cinza, sarapintado pelo marrom da ferrugem que se espalhava como catapora por toda a extensão da estrutura.

No fim da sala, espelhos reforçavam a ilusão de imensidão da sala, fazendo-a parecer ao mesmo tempo intimidante e aconchegante. Quem entrasse ali desavisado logo se sentiria pequeno. Até se acostumar. Até vaguear os olhos e começar a conhecer a sala.

Um pequeno polígono feito de teias de aranha se destacava no canto esquerdo. Era o trabalho de uma vida inteira de uma jovem aranha que havia escolhido a sala abafada como morada. Era perfeita para sua vida limitada. Grande o suficiente para não ter que disputar com suas irmãs por um pedaço de caibro, quente o bastante para se manter aconchegada, mas com ventilação ampla, típica das antigas casas rurais. Sempre um inseto desavisado entrava seguindo as correntes secas de ar, cuidando de sua própria e minúscula vida, e sempre a infante aranha o capturava. E o ciclo para aquela aranha era sempre o mesmo, tecer, esperar, predar. Tecer e esperar, esperar e pedrar.

Ela nem sequer notou os dezesseis estranhos que agora se entreolhavam tímidos, avaliavam a sala, cada um do seu jeito. Olhavam e descobriam a sala, enquanto a sala os recebia do seu jeito abrasivo e abafado. Eles olhavam e notavam.

Haviam ventiladores velhos e quebrados instalados nas paredes, com aparência de que não eram ligados a um bom tempo.

As vigas e caibros do teto eram de carvalho forte, grossas como postes, e ao contrário de tudo o mais naquela sala, estavam limpas e envernizadas. Seguravam um teto bem estruturado, de maciças telhas carmim, que aparentavam já terem sobrevivido a tudo que uma telha pudesse enfrentar.

E havia o linóleo. Linóleo negro. Um linóleo brilhoso.
Era um linóleo velho, e aparentava ser. Na verdade, parecia ter orgulho de ser como era, experiente e sábio. Ostentava todas as marcas de ter vivido sua vida e cumprido com amor sua função, e ainda ansiava por mais.
Todas as marcas possíveis do tempo e do uso estavam lá. Depressões, rasgos, mofo, costuras e remendos. Fita adesiva segurava algumas partes, e em outras os buracos eram grandes demais para serem reparados, então apenas ficavam ali, se exibindo como rugas em um rosto sábio. Como um avô que lhe sorri mesmo quando você faz uma traquinagem.

E era nesse linóleo sábio e carinhoso que todos se juntaram, cada qual com seu objetivo, para criar mágica.









domingo, 13 de setembro de 2015

Re(re)começo

Boa noite.
Bom dia.
Boa tarde.

Que seja bom, seja tarde da noite, dia de noite ou um dia de tarde.

Pode não vir nada, mas enfim, é o recomeço, o novo início.

Escrever o que? 

Nunca fui poeta, então não será poesia. Na verdade nem sei se entendo poesia. Prosa? Dissertação? Conversa? Descrição? Abstrato? Pode ser, o que vier, afinal, é um recomeço.

Por que?

Preciso escrever por que escrever é preciso. Desaguar. Desatar. Desbravar pensamentos e ver até onde eles vão. Por que é tarefa e é paixão. Por que .... preciso.

Pra quem?

Pra mim, principalmente. Parcialmente. Por mim, pra quem estiver lendo, pra quem se interessar, para esse virtual papel em branco, para os paraquedistas, desavisados, inocentes que caírem aqui. Pra tu e pra nós. Eu e vós.

Sobre o que?

Sobre tudo. Sobre mim, sobre ela, sobre o mundo. Sobre escrever em sim, sobre ser escrito, descrever a inscrição. Sobre o exato, sobre o concreto, sobre o abstrato, sobre o comum. Sobre o irreal, sobre a prosopopeia, sobre o que eu acabei de escrever e nem lembro.
Dar vida a umas pequenas criações, dar movimento a outras, andar com a vida de alguns, decidir o final de outros. Sobre nada. Sobre tudo. Escrever tudo possível sobre o nada.
Aquela flor? Verde ali no canto? Isso, aquela mesma. Descrevê-la toda, só por descrever, só pra olear a máquina criativa na ponta dos dedos.

Por que nas minhas mãos estão dez penas totalmente carregadas de tinta digital, esperando pra serem usadas, e a muito abandonadas.

Voltar a encontrar o Guardião, Pólvora, Nagash, Helena "A Hiena" e tantos outros. Mas não só eles. Voltar a Vexille, Astarac, Lancaster, toda Yotun. Passar em Lua Crescente, visitar Telleri, passear com antigos companheiros.

Mas não só isso. Sentir a sensação das palavras saindo sem ordem e com vontade própria, ser instrumento do transe criativo, criar estéticas únicas, copiar outras, modificar tantas mais.

Escrever. Escrever e escrever. 

Por que preciso. 
Pra ser mais preciso, preciso escrever pra ser.
Um ser escrito.
 
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