sexta-feira, 6 de março de 2009

Dramomatopéia

Num dia comum, no consultório do renomado médico alemão Dr. Huumpf, um paciente que parecia ter sido curado, retorna:

- Bom dia doutor.
- Bom dia meu caro, como estamos hoje?
- Nada bem doutor, nada bem.
- Mas o que aconteceu?
- Estou em desuso, meu bom doutor.
- Desuso? Explique-se melhor, por favor.
- Doutor, ninguém mais me usa. Sou ultrapassado.
- Ora não diga isso, tenho certeza que muitas pessoas ainda precisam de um bom sorriso!
- Claro que precisam doutor, mas essa nova geração de sorrisos... Essa bosta de nova geração de sorrisos... Eles são, no mínimo, esquisitos.
- Defina esquisitos.
- Esquisitos! Diferentes!
- Calma, não se exalte. Vamos fazer assim, conte do início e trabalharemos em cima dos fatos.
- Tudo bem doutor, tudo bem.
- Fique a vontade, relaxe e conte.
- Começou já tem um tempo doutor, mas eu não queria acreditar. Não me leve a mal, mas eu sempre fui bom em meu trabalho. Sempre que alguém precisava escrever um belo dum sorriso, uma risada gostosa, e até de uma gargalhada, lá estava eu. Sempre fiz meu trabalho como deve ser feito, nada complicado. Um Agá, um Á, outro Agá, outro Á, mais um Agá, mais um Á. Básico. HAHAHA. Esse sou eu doutor, HAHAHA.
- Sim, eu lhe conheço, não se lembra que tivemos várias sessões de terapia familiar, você, seu irmão HEHEHE, por causa de todo aquele problema de, digamos, preferências não ortodoxas de seu irmão HIHIHI?
- Nem me lembre desses dois, doutor, que desapontamento, como uma risada infantil foi virar uma risada de vi...
- Que é isso senhor HAHAHA, vai estragar todo nosso tempo de terapia, já lhe disse que é perfeitamente normal que ele se sinta atraído por outros tipos de onomatopéias.
- Eu sei doutor, mas é que ele se envolveu com um tal de Ouch!, Passam o dia trancados no quarto, é Ouch! Pra lá, HIHIHI pra lá... Assim não dá doutor!
- Deixemos isso pra depois meu jovem, continue seu raciocínio.
- Então doutor, como eu disse, sempre fiz meu trabalho direitinho, tudo nos conformes. Sem correr riscos, eu sei, mas também sem causar problemas. E foi então que aquele mauricinho americano apareceu!
- E quem seria esse?
- O BWAHAHA.
- BWAHAHA? Não me parece tão diferente de você.
- E não é! Olha que absurdo! Ele me copia! Só apareceu com uma letra nova, dessas que nem tinha no nosso alfabeto antigamente! Como eu ia saber que queriam um Dáblio numa risada, se nem existia Dáblio naquele tempo? Como doutor, me diga!
- Calma, não foi sua culpa, recomponha-se.
- Desculpe doutor. Mas é que eu investi tanto em marketing pessoal, pra fazer as pessoas entenderem que Agá mais Á tem som de RÁ.
- HUUMPF!
- Mas continuando, esse mauricinho me roubou vários empregos. Primeiros em gibis, os jovens já não gostavam do simples e direto, queriam novidades. Eu não me magoei, entendi, na verdade nem me chateei, afinal, ainda tinha bastante trabalho. Festas de crianças, palhaços, revistas infantis. Mas então doutor, mas então... Então veio a internet... Ela acabou com tudo!
- Conte-me mais sobre isso.
- As pessoas começaram a usar cada vez mais o BWAHAHA, e logo depois seu primo MWAHAHA veio seguindo a onda. E depois de um tempo, nem revistinhas me queriam mais. Fiquei sem emprego, sem pagar aluguel, se não fosse o meu irmão HEHEHE que havia arrumado um emprego fixo numa série de desenhos, como a risada de um velhinho meio excêntrico, eu teria morrido de fome!
- Você realmente me parece mais magro.
- É doutor, emagreci tanto que virei HAHA. Pra piorar tudo!
- Piorar tudo? Você me parece bem em forma como HAHA.
- Que nada doutor, é só aparência. O pior é que HAHA! É uma risada patenteada, lá daquele desenho da família amarela, aquele que faz muito sucesso.
- Sei qual é, um homem de meia idade obeso e obtuso vivendo com uma filha hiper-dotada, um delinqüente, uma mulher com sérios problemas de atenção, e uma criança que parece não crescer. Que família!
- Essa mesmo doutor. Aparentemente existe um personagem que sempre que alguém se dá mal diz HAHA!. Imagina isso doutor, fui patenteado! E nem voltar a minha antiga forma, eu posso, quando fiz meus primeiros HAHAs, uns brutamontes pensaram que eu estava mangando deles, e me espancaram. Pobre de mim doutor.
- Situação difícil meu caro.
- E põe difícil nisso doutor. Mas isso ainda não é o pior.
- E como não?
- Claro que não. O pior veio depois.
- HUUMPF.
- Depois disso tudo, apareceu um tal de KKKKKKKK.
- E o que é isso? Um canto de alguma ave tropical?
- Nem! Dizem que é um sorriso.
- Ultrajante. Nem mesmo soa como um.
- Pois não é? Eu disse a mesma coisa. Meu único consolo é que o BWAHAHA morreu de overdose, e o primo dele ta foragido.
- HUUMPF!
- Sei que não devia pensar mal dos outros, mas as risadas deles eram extremamente provocativas.
- Huumm...
- Doutor, esse KKKKKKKK me pôs em maus lençóis. Ninguém me usa mais! Estou sem emprego, sem futuro.
- Não diga isso, outros também enfrentaram esse problema e perseveraram.
- Cite um doutor.
- Vejamos. Que tal o bom e velho Bang!? Ele ainda está por aí.
- Mas não foi como devia. Ele virou matador de índios no Velho-Oeste. Eu sou muito pacífico, fui criado pra sorrir.
- Arf?
- Também não, cachorros hoje até falam!
- Mesmo assim, existem soluções.
- Eu sei doutor, e na verdade vim até aqui com uma solução pronta.
- Que ótimo! E qual seria?
- Vou me tornar outra onomatopéia.
- Inteligente. Mas isso é possível?
- Vamos ver.
- Por que está indo até a janela?
- Pra apreciar a vista doutor.
- Cuidado, são 45 andares.
- Eu sei.
- PARE! Que loucura! Desça desse parapeito.
- Tudo bem doutor, é parte do plano. Até mais tarde.

A
A
A
A
A
H
H
H
H
H
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SCATAPLOFT!!

...

Minutos depois:

- Acorde! Acorde!
- Doutor! Deu certo doutor? Mudei? Sou uma nova onomatopéia agora?
- Sim, você é.
- Então estou bem. Mas por que essa cara?
- huumpf...
- Doutor?
- Você... Você não está bem.
- Mas doutor, eu me sinto bem!
- Sim, mas você pulou de muito alto.
- Muito alto?
- Isso. Se fosse só um PLOFT, eu poderia lhe ajudar. Mas um SCATAPLOFT... É muito sério.
- Sério? Sério quanto?
- Só tens alguns segundos de vida. Já chegaram os COF COFs. Eles nunca são bom sinal.
- COF. COF COF. Doutor... UGH.
- Passou pra o UGH. Só falta o GASP.
- Doutor.. GAS... GAS...
- Calma... Acho que tenho a solução.
- Doutor... diga o que eu devo... UGH. COF COF.
- Sorria.
- Não entendo doutor.
- Sorria! Vamos, uma vibrante gargalhada.
- Mas não tenho motivo... GAS...
- Vamos! Sorria! Só falta um Pê pra um GASP completo. Pense em algo divertido!
- Ah... UGH
- Isso, continue!
- aha... COF COF.
- Mais um pouco!
- ahahaha… ahahahah
- HUUMPF! Só isso não é o bastante!
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!
- Mais! Mais!
- KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
- Isso! Assim mesmo! Pronto, ponha-se de pé!
- Doutor! Estou bem!
- Sim, novo em folha, e até melhorado.
- Sou HAHAHAHAHA agora.
- Sim. Mas me diga, em que pensou pra soltar tal gargalhada?
- Pensei o quanto devia ser engraçado eu ter me jogado de um prédio pra virar outra coisa, e ser salvo pela risada que eu odiava.
- Isso é, sem dúvida, deveras embaraçoso.
- Mas doutor, como sabia que sorrir me salvaria?
- Simples meu caro. A dor de um PLOFT, até mesmo de um SCATAPLOFT, logo se acaba. Já uma boa risada, essa dura pra sempre.

7 comentários:

  1. Que lindo. Me deu vontade de chorar.

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  2. Criatividade do KAUS, me assusta... essa foi demais... Hahahaha!

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  3. IUAHAUIHAIUAHI.
    muito bom, muito bom, muito bom.

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  4. aaaah adoreeei :D
    muuuuuuuito bom!
    vou acompanhar ;)
    ;******

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  5. Nemli & Nemlerei aprovam esse blog!

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