segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Linóleo

Na sala quente, de uma construção antiga, estavam lá, dezesseis pessoas estranhas entre sim, pelo menos em sua maioria. Alguns aflitos, muitos excitados, outros nervosos. Ninguém indiferente.

A sala era ampla, retangular, com oito janelas duplas de cada lado, no momento fechadas por causa dos grandes e barulhentos condicionadores de ar, que no calor daquela época, pouco podiam fazer. De cada um dos lados haviam barras de ferro fixadas a parede, pintadas com tinta óleo preta, há muito tempo, tanto tempo que o preto se tornava cinza, sarapintado pelo marrom da ferrugem que se espalhava como catapora por toda a extensão da estrutura.

No fim da sala, espelhos reforçavam a ilusão de imensidão da sala, fazendo-a parecer ao mesmo tempo intimidante e aconchegante. Quem entrasse ali desavisado logo se sentiria pequeno. Até se acostumar. Até vaguear os olhos e começar a conhecer a sala.

Um pequeno polígono feito de teias de aranha se destacava no canto esquerdo. Era o trabalho de uma vida inteira de uma jovem aranha que havia escolhido a sala abafada como morada. Era perfeita para sua vida limitada. Grande o suficiente para não ter que disputar com suas irmãs por um pedaço de caibro, quente o bastante para se manter aconchegada, mas com ventilação ampla, típica das antigas casas rurais. Sempre um inseto desavisado entrava seguindo as correntes secas de ar, cuidando de sua própria e minúscula vida, e sempre a infante aranha o capturava. E o ciclo para aquela aranha era sempre o mesmo, tecer, esperar, predar. Tecer e esperar, esperar e pedrar.

Ela nem sequer notou os dezesseis estranhos que agora se entreolhavam tímidos, avaliavam a sala, cada um do seu jeito. Olhavam e descobriam a sala, enquanto a sala os recebia do seu jeito abrasivo e abafado. Eles olhavam e notavam.

Haviam ventiladores velhos e quebrados instalados nas paredes, com aparência de que não eram ligados a um bom tempo.

As vigas e caibros do teto eram de carvalho forte, grossas como postes, e ao contrário de tudo o mais naquela sala, estavam limpas e envernizadas. Seguravam um teto bem estruturado, de maciças telhas carmim, que aparentavam já terem sobrevivido a tudo que uma telha pudesse enfrentar.

E havia o linóleo. Linóleo negro. Um linóleo brilhoso.
Era um linóleo velho, e aparentava ser. Na verdade, parecia ter orgulho de ser como era, experiente e sábio. Ostentava todas as marcas de ter vivido sua vida e cumprido com amor sua função, e ainda ansiava por mais.
Todas as marcas possíveis do tempo e do uso estavam lá. Depressões, rasgos, mofo, costuras e remendos. Fita adesiva segurava algumas partes, e em outras os buracos eram grandes demais para serem reparados, então apenas ficavam ali, se exibindo como rugas em um rosto sábio. Como um avô que lhe sorri mesmo quando você faz uma traquinagem.

E era nesse linóleo sábio e carinhoso que todos se juntaram, cada qual com seu objetivo, para criar mágica.









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