sábado, 10 de março de 2012

Prólogo

Pessoal, esse, se possível, vai ser o primeiro capítulo de um, talvez, livro. Deem suas opiniões.


O mar jogava o navio de um lado pro outro, as vezes alto, as vezes mais alto ainda, mas nada que um marinheiro experiente não estivesse acostumado. Estavam em meio a uma grande tempestade tropical, as ondas ficavam cada vez maiores, e maiores, ao ponto de por algumas vezes chegava a cobrir a popa. Marinheiros com barris de madeira cheios de areia espalhavam pelo chão pra facilitar na hora de passarem os escovões de tirar agua, tampões de madeira pra fechar buracos causados pelo vento forte que arrancava tabuas de seus rebites, e cunhas enormes chamadas de bujões, usadas pra preencher esses eventuais espaços entre as tábuas do casco recém-escovado.

O navio resistia bravamente a cada investida do oceano, persistia contra as imensas ondas verdes e salgadas. Marinheiros cantavam e bebiam rum, abaixavam as velas para não serem rasgadas pelo vento, outros lutavam com o timão pra manter o navio estável, e os que não tinham nada a fazer, apenas bebiam e cantavam. Nos porões, mulheres se escondiam e se agarravam onde podiam. É verdade que não podiam haver mulheres nos navios, mas elas sempre entravam, e o capitão fazia vista grossa a tais quebras-de-conduta. Ele também já havia feito clandestina uma ou duas mulheres em seu tempo de Guarda-Marinha.

Tais mulheres viviam de viajar enfurnadas nos porões dos barcos, muitas vezes sem nem subir ao convés durante uma viagem toda, e eram conhecidas como Damas de bordo. E essas viagens poderiam durar meses. Ficavam em quartos que deveriam ser despensas, espremidas entre odres de rum e barris de gordura, elas viviam e faziam seu trabalho. Quatro, cinco, até seis em uma única noite, cada um por uma peça de cobre, alguns clientes particularmente satisfeito pagavam duas, e elas levavam uma vida decente, se comparada ao que as esperava em terra. Eram em sua maioria fugitivas, filhas enjeitadas de pais cruéis, órfãs sem protetor, adúlteras, viúvas de mercadores falidos, ladras, algumas prostitutas cansadas da vida dentro das casas-de-prazeres, ou mesmo apenas aventureiras cansada da vida que tinham, e tentavam essas viagens, longas e cansativas, onde a esperança era grande, de desembarcar com os bolsos cheios de cobres, desembarcar em uma nova terra onde seu nome não tenha caído em desgraça, desembarcar em uma terra onde tivesse um futuro. Qualquer futuro.

Algumas dessas mulheres tinham sorte, e caiam nas graças de algum oficial, ou marinheiro mais forte, e passavam a dividir os aposentos com ele, apesar de mesmo assim não poderem subir ao convés, era uma vida bem melhor, e as janelas de bordo proviam algum sol, e a companhia constante também garantia alguma proteção e melhor comida.

Outras não tinham tanta sorte, e em uma proporção tão grande que muitas vezes chegava em uma pra cada oitenta marujos, em alguns meses elas já estavam em estado de saúde tão debilitado que uma febre era o bastante pra dar fim a sua já frágil e desgraçada vida.

Uma dessas desafortunadas, morta de exaustão, sede e febre, foi mãe de um menino, mas nem mesmo se podia saber quem era a mãe dessa criança, pois na mesma semana morreram quatro damas de bordo, e o bebê, sem chorar nenhuma vez, e sem estar sem uma gota de sangue o sujando, prova de que não havia nascido tão recentemente, foi encontrado embolado numa estopa de recarga de canhão. Sua mãe devia pretender que ele fosse explodido ou atirado ao mar. Mas não importou, por que ela, quem quer que fosse, morreu primeiro, e o menino calado e já com cara de poucos amigos, sobreviveu enrolado em meio a pólvora. Os marinheiros o passaram de mão em mão, procuravam seu pai, brincavam e apostavam quem seria o azarado de ter tido um filho em pleno mar, mas chegou-se a conclusão que esse filho era de ninguém, pois não se sabia qual das três damas de bordo podia ser sua mãe. O menino então foi adotado pela tripulação, e foi apelidado de Pólvora, por que naquela primeira noite, achavam que ele estava preto de sujo, mas nem dois banhos de agua do mar e um de rum mudaram seu tom de pele estranhamente preto-cinza. Pólvora, fora assim que foi batizado por quinhentos e setenta e nove marinheiros, cada um podendo ser seu pai. E era isso que era, filho de meia centena de dúzias de animais e de três putas.

E o capitão nunca o deixaria se esquecer disso. Foi cuidado e amamentado por uma das damas de bordo que havia perdido um filho uma semana depois de o encontrarem em meio aos canhões, e não podia pegar a luz do sol nunca, era proibido de sair dos porões. Só era cuidado pela mulher que perdeu um filho, e como era uma viagem especialmente longa, foi amamentado por cinco meses, até a bondosa dama agonizar com os berros sufocados por um brutamonte que não se conteve, e enquanto tinha seu prazer visceral, esmagou a traqueia da pobre dama que só quis lhe oferecer companhia, e a matou, tudo isso pra não pagar um simples cobre.

O brutamonte, chamado Pricks, olhou pra pequena cama improvisada no depósito, e pro berço feito de barris que estava ao lado, e gargalhou. A sua gargalhada cruel acordou o pequeno Pólvora, que começou a chorar abundantemente. Pricks podia ser um brutamonte, mas também tinha a inteligência maligna de uma víbora, e sabia que se o menino não se calasse, logo alguém iria lá e o pegaria no flagra, com um corpo estrangulado que tinha as marcas de suas imensas mãos. Tentou calar o pequeno, xingou e gritou, deu palmadas mas suas mãos gigantes só machucavam o bebê. Tentou fazer carinho, mas seus dedos calejados arranhavam a pele delicada da criança. Pensou e pensou, e decidiu que o menino tinha fome. Então procurou comida, tentou dar rum, tentou dar queijo, mas a criança não comia nada disso. Leite! O menino precisa de leite, decidiu ele, e sorriu quando olhou pros lados e viu que tinha leite bem ali a sua frente. Levantou o menino pela parte de traz do pescoço usando apenas o dedo indicador e o polegar, e espremei os peitos da morta, fazendo o menino mamar leite de uma defunta. O menino sorveu o liquido morto com desespero, até não ter mais nenhuma gota, e então Pricks o puxou pra cima com força e disse:

- É isso que filho de rameiro merece, leite de morto. Num vô gastar leite de cabra boa com um merdinha que nem tu, e se tu chorar de novo, eu te boto debaixo dela e tu morre sufocado, aí todo mundo vai pensar que ela que te matou.

O menino, como se entendesse as palavras cuspidas em sua cara, tinha o olhar vidrado, fixo nos olhos negros do grandalhão. O próprios olhos do menino pareciam mais inteligentes do que os de Pricks, e por algum motivo, ele teve medo, tanto medo que jogou o menino de apenas seis meses para longe, lançando-o contra o corpo da mulher morta, que amorteceu sua queda, mas não impediu que a criança batesse a cabeça numa garrafa de rum, que, com um estalo longo, se partiu e derramou todo o conteúdo nos olhos do bebê. Sangue escorreu de um corte vertical recém causado na nuca da criança, mas mesmo assim ele não chorou. Ficou ali de olhos abertos ardendo de rum, com a cabeça sangrando, e olhando para o gigante cruel que acabara de matar a única pessoa que lhe tratou com dignidade.

E se não fosse um bebê, Pricks teria dito que aquele menino o odiava, e que seus olhos juravam vingança.

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